{"id":531,"date":"2011-04-04T21:06:34","date_gmt":"2011-04-04T21:06:34","guid":{"rendered":"http:\/\/terapiaschinesas.wordpress.com\/?p=531"},"modified":"2020-04-27T16:10:33","modified_gmt":"2020-04-27T19:10:33","slug":"japao-por-monja-coen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.terapiaschinesas.com.br\/index.php\/2011\/04\/04\/japao-por-monja-coen\/","title":{"rendered":"Jap\u00e3o, por Monja Coen"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border:10px solid white;\" src=\"http:\/\/www.monjacoen.com.br\/images\/stories\/imagens\/coen_new.jpg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"250\" \/>Com respeito pe\u00e7o permiss\u00e3o para reproduzir em nosso site essa emocionante e profunda mensagem da <strong><a href=\"http:\/\/www.monjacoen.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monja Coen Sensei<\/a><\/strong> sobre a trag\u00e9dia japonesa. <em>Domo arigat\u00f4 Sensei<\/em>:<\/p>\n<p>&#8220;Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Jap\u00e3o, me incumbi da dif\u00edcil miss\u00e3o de transmitir o que mais me impressionou do povo Japon\u00eas: kokoro.<\/p>\n<p>Kokoro \u00a0ou Shin significa cora\u00e7\u00e3o-mente-ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar \u00e0 servi\u00e7o e disposi\u00e7\u00e3o do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?<\/p>\n<p>Outra palavra \u00e9 gaman: aguentar, suportar.\u00a0 Educa\u00e7\u00e3o para ser capaz\u00a0 de suportar dificuldades e super\u00e1-las.<\/p>\n<p>Assim, os eventos de 11 de mar\u00e7o, no Nordeste japon\u00eas, surpreenderam o mundo\u00a0 de duas maneiras.<\/p>\n<p>A primeira pela viol\u00eancia do tsunami e dos v\u00e1rios terremotos, bem como dos perigos de radia\u00e7\u00e3o das usinas nucleares de Fukushima.<\/p>\n<p>A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paci\u00eancia, honra e respeito de todas as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.<\/p>\n<p>Nos abrigos, a surpresa das rep\u00f3rteres norte americanas: ningu\u00e9m queria tirar vantagem sobre ningu\u00e9m.\u00a0 Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupa\u00e7\u00f5es, massagens. Cada qual se mantinha em sua \u00e1rea.\u00a0 As crian\u00e7as n\u00e3o faziam algazarra, n\u00e3o corriam e gritavam, mas se mantinham no espa\u00e7o que a fam\u00edlia havia reservado.<\/p>\n<p>N\u00e3o furaram as \u00a0filas para assist\u00eancia m\u00e9dica \u2013 quantas pessoas necessitando de rem\u00e9dios perdidos-<\/p>\n<p>mas esperaram sua vez tamb\u00e9m para receber \u00e1gua, usar o telefone, receber aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica,\u00a0 alimentos, roupas e escalda p\u00e9s singelos, com pouqu\u00edssima \u00e1gua.<\/p>\n<p>Compartilharam tamb\u00e9m do resfriado, da falta de \u00e1gua para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.<\/p>\n<p>Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, n\u00e3o houve saques.\u00a0 Houve a resigna\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. \u00a0Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: cora\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Sumimasen \u00e9 outra palavra chave. \u00a0Desculpe, sinto muito, com licen\u00e7a. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.\u00a0 Desculpe causar preocupa\u00e7\u00e3o, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com voc\u00ea, ou tocar \u00e0 sua porta.\u00a0 Desculpe pela minha dor, pelo minhas l\u00e1grimas, pela minha passagem, pela preocupa\u00e7\u00e3o que estamos causando ao mundo.\u00a0 Sumimasem.<\/p>\n<p>Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.<\/p>\n<p>O inverso n\u00e3o \u00e9 verdadeiro: se pensar primeiro em mim e s\u00f3 cuidar de mim, perderei.\u00a0 Cada um de n\u00f3s, cada uma de n\u00f3s \u00e9 o todo manifesto.<\/p>\n<p>Acompanhando as transmiss\u00f5es na TV e na Internet pude pressentir a aten\u00e7\u00e3o e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar p\u00e2nico.\u00a0 As v\u00edtimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de\u00a0 resgate e delicadamente transportadas \u2013 quer para as tendas do ex\u00e9rcito, que serviam de hospital, quer para as ambul\u00e2ncias, helic\u00f3pteros, barcos, que os levariam a hospitais.<\/p>\n<p>An\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o por especialistas, informa\u00e7\u00f5es incessantes a toda popula\u00e7\u00e3o pelos oficiais do governo e a no\u00e7\u00e3o bem estabelecida de que \u201csomos um s\u00f3 povo e um s\u00f3 pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Telefonei v\u00e1rias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.\u00a0 Diziam-me do exagero das not\u00edcias internacionais, da confian\u00e7a nas solu\u00e7\u00f5es que seriam encontradas e todos me pediram que n\u00e3o cancelasse nossa viagem em Julho pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Aprendemos com essa trag\u00e9dia \u00a0o que Buda ensinou h\u00e1 dois mil e quinhentos anos: a vida \u00e9 transit\u00f3ria, \u00a0nada \u00e9 seguro neste mundo, \u00a0tudo pode ser destru\u00eddo em um instante e reconstru\u00eddo novamente.<\/p>\n<p>Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo \u00a0est\u00e1 interligado e que n\u00f3s humanos n\u00e3o somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.\u00a0 O planeta tem seu pr\u00f3prio movimento e vida.\u00a0 Estamos na superf\u00edcie, na casquinha mais fina.\u00a0 Os movimentos das placas tect\u00f4nicas n\u00e3o tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vingan\u00e7as ou castigos.\u00a0 O que podemos fazer \u00e9 cuidar da pequena camada produtiva, da \u00e1gua, do solo e do ar que respiramos.\u00a0 E isso j\u00e1 \u00e9 uma tarefa e tanto.<\/p>\n<p>Aprendemos com o povo japon\u00eas que a solidariedade leva \u00e0 ordem, que a paci\u00eancia leva \u00e0 tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficar\u00e1 impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.<\/p>\n<p>Havia pessoas suas conhecidas na trag\u00e9dia?, me perguntaram. E s\u00f3 posso dizer : todas..\u00a0 Todas eram e s\u00e3o pessoas de meu conhecimento.\u00a0 Com elas aprendi a orar, a ter f\u00e9, paci\u00eancia, persist\u00eancia.\u00a0 Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.<\/p>\n<p>M\u00e3os em prece (gassho)<\/p>\n<p>Monja Coen&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com respeito pe\u00e7o permiss\u00e3o para reproduzir em nosso site essa emocionante e profunda mensagem da Monja Coen Sensei sobre a trag\u00e9dia japonesa. Domo arigat\u00f4 Sensei: &#8220;Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Jap\u00e3o, me incumbi da dif\u00edcil miss\u00e3o de transmitir o que mais me impressionou do povo Japon\u00eas: kokoro. Kokoro \u00a0ou Shin significa cora\u00e7\u00e3o-mente-ess\u00eancia. Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar \u00e0 servi\u00e7o e disposi\u00e7\u00e3o do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada? Outra palavra \u00e9 gaman: aguentar, suportar.\u00a0 Educa\u00e7\u00e3o para ser capaz\u00a0 de suportar dificuldades e super\u00e1-las. Assim, os eventos de 11 de mar\u00e7o, no Nordeste japon\u00eas, surpreenderam o mundo\u00a0 de duas maneiras. A primeira pela viol\u00eancia do tsunami e dos v\u00e1rios terremotos, bem como dos perigos de radia\u00e7\u00e3o das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paci\u00eancia, honra e respeito de todas as v\u00edtimas. Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros. Nos abrigos, a surpresa das rep\u00f3rteres norte americanas: ningu\u00e9m queria tirar vantagem sobre ningu\u00e9m.\u00a0 Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupa\u00e7\u00f5es, massagens. Cada qual se mantinha em sua \u00e1rea.\u00a0 As crian\u00e7as n\u00e3o faziam algazarra, n\u00e3o corriam e gritavam, mas se mantinham no espa\u00e7o que a fam\u00edlia havia reservado. N\u00e3o furaram as \u00a0filas para assist\u00eancia m\u00e9dica \u2013 quantas pessoas necessitando de rem\u00e9dios perdidos- mas esperaram sua vez tamb\u00e9m para receber \u00e1gua, usar o telefone, receber aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica,\u00a0 alimentos, roupas e escalda p\u00e9s singelos, com pouqu\u00edssima \u00e1gua. Compartilharam tamb\u00e9m do resfriado, da falta de \u00e1gua para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte. Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, n\u00e3o houve saques.\u00a0 Houve a resigna\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. \u00a0Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: cora\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o. Sumimasen \u00e9 outra palavra chave. \u00a0Desculpe, sinto muito, com licen\u00e7a. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.\u00a0 Desculpe causar preocupa\u00e7\u00e3o, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com voc\u00ea, ou tocar \u00e0 sua porta.\u00a0 Desculpe pela minha dor, pelo minhas l\u00e1grimas, pela minha passagem, pela preocupa\u00e7\u00e3o que estamos causando ao mundo.\u00a0 Sumimasem. Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas. O inverso n\u00e3o \u00e9 verdadeiro: se pensar primeiro em mim e s\u00f3 cuidar de mim, perderei.\u00a0 Cada um de n\u00f3s, cada uma de n\u00f3s \u00e9 o todo manifesto. Acompanhando as transmiss\u00f5es na TV e na Internet pude pressentir a aten\u00e7\u00e3o e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar p\u00e2nico.\u00a0 As v\u00edtimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de\u00a0 resgate e delicadamente transportadas \u2013 quer para as tendas do ex\u00e9rcito, que serviam de hospital, quer para as ambul\u00e2ncias, helic\u00f3pteros, barcos, que os levariam a hospitais. An\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o por especialistas, informa\u00e7\u00f5es incessantes a toda popula\u00e7\u00e3o pelos oficiais do governo e a no\u00e7\u00e3o bem estabelecida de que \u201csomos um s\u00f3 povo e um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Telefonei v\u00e1rias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.\u00a0 Diziam-me do exagero das not\u00edcias internacionais, da confian\u00e7a nas solu\u00e7\u00f5es que seriam encontradas e todos me pediram que n\u00e3o cancelasse nossa viagem em Julho pr\u00f3ximo. Aprendemos com essa trag\u00e9dia \u00a0o que Buda ensinou h\u00e1 dois mil e quinhentos anos: a vida \u00e9 transit\u00f3ria, \u00a0nada \u00e9 seguro neste mundo, \u00a0tudo pode ser destru\u00eddo em um instante e reconstru\u00eddo novamente. Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo \u00a0est\u00e1 interligado e que n\u00f3s humanos n\u00e3o somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.\u00a0 O planeta tem seu pr\u00f3prio movimento e vida.\u00a0 Estamos na superf\u00edcie, na casquinha mais fina.\u00a0 Os movimentos das placas tect\u00f4nicas n\u00e3o tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vingan\u00e7as ou castigos.\u00a0 O que podemos fazer \u00e9 cuidar da pequena camada produtiva, da \u00e1gua, do solo e do ar que respiramos.\u00a0 E isso j\u00e1 \u00e9 uma tarefa e tanto. Aprendemos com o povo japon\u00eas que a solidariedade leva \u00e0 ordem, que a paci\u00eancia leva \u00e0 tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o. Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficar\u00e1 impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de mar\u00e7o. 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