Articles for abril 2011

O leite e a formação de Mucosidade

Quando em alguma palestra ou aula falamos sobre a Dietologia da Medicina Chinesa, é quase inevitável que em algum momento alguém nos pergunte: mas e o leite? O leite e seus derivados são um tema controverso na nutrição mundial. Muitos estudos feitos tentam comprovar seus benefícios, assim como seus malefícios, e a população ocidental, que culturalmente tem o leite como uma das bases da sua alimentação, continua sem total consciência de como ele altera nossa fisiologia.

Para entendermos esse mecanismo precisamos primeiro conhecer um princípio fundamental da nossa digestão, segundo a visão da Medicina Chinesa, que é a formação do que chamamos de Mucosidade (痰饮 – Tan Yin). A Mucosidade é um resíduo formado pelo mau funcionamento do Estômago (胃 – Wèi) e do Baço (脾 – ). Segundo a Medicina Chinesa, o Estômago (胃 – Wèi) tem a função de preparar os alimentos que comemos para o aproveitamento energético e nutricional. Já o Baço (脾 – ) transforma o que pode ser aproveitado pelo corpo em energia nutritiva que será utilizada, dentre outras funções, para a geração do Sangue (血 – Xuè). Toda vez que o Estômago (胃 – Wèi) e o Baço (脾 – ) entram num quadro de hipofuncionamento, ou seja, quando eles têm suas funções feitas numa velocidade mais lenta e com menos eficácia, começamos a ter a formação desse resíduo, chamado de Mucosidade (痰饮 – Tan Yin).

Ela é considerada o pior dos fatores geradores de doença que nosso corpo pode criar quando está em desarmonia. Isto porque esse resíduo pode se acumular de muitas maneiras, gerando inúmeras patologias. Pode se acumular em forma de muco propriamente dito, alojando-se no pulmão e gerando asma, bronquite, tosses crônicas, pigarro. Pode também se acumular em forma de gordura, gerando obesidade. Ou então em forma de retenção de líquidos, gerando edemas. Mais profundamente, pode alojar-se nas articulações, causando obstrução circulatória, dor e deformidade óssea, como na artrite reumatóide. Ou, ainda, esse resíduo pode gerar má formação celular, sendo, dentro da Medicina Chinesa, sempre uma pré-condição para a geração de um tumor ou câncer.

Dentre os alimentos mais comuns da alimentação ocidental, o leite e seus derivados formam a categoria que mais facilmente gera Mucosidade (痰饮 – Tan Yin). O leite de origem bovina é de muito difícil digestão para o nosso trato digestório, favorecendo a formação desse resíduo. Já o leite materno é exatamente o oposto. Por ser próprio para a fisiologia humana, o bebê o digere rapidamente e com o máximo de aproveitamento nutricional e energético.

Os chineses de modo geral não ingerem leite e seus derivados. Leite de vaca, iogurte, sorvete e queijo são alimentos que ainda são raros na alimentação chinesa e na verdade eles chegam até a ter aversão a esse tipo de alimento. Mesmo com os bebês, os chineses não dão leite de vaca após o período de amamentação. Vários estudos epidemiológicos já foram realizados procurando entender o motivo que faz com que os índices de câncer de mama, de ovários, de próstata, de intestino, dentre outros, sejam muito menores na população chinesa do que na ocidental. Esses estudos também apontam a ingestão do leite como um dos principais motivos para essa importante diferença. Outros motivos são os demais hábitos alimentares saudáveis que os chineses possuem, além de uma grande cultura que incentiva a atividade física regular em todas as idades.

Na nossa linhagem de Medicina Chinesa, de origem taoista, não entendemos como harmoniosos os extremos. Por isso sugerimos que não retiremos por completo o leite da nossa alimentação, mas que diminuamos a sua ingestão e de seus derivados. Isso torna-se ainda mais importante para pessoas que apresentam algum grau de deficiência na digestão (como digestão lenta, formação de gases, azia) e especialmente para quem já apresenta sinais e sintomas de Mucosidade (痰饮 – Tan Yin) acumulada.

Lançamento do livro Dao De Jing (Tao Te Ching) comentado pelo Mestre Cherng

Um dos meus principais papéis como professor de Medicina Chinesa de uma linhagem tradicional, a Agulha de Ouro, é difundir os conhecimentos desta Medicina, sempre estando fundamentado nos princípios filosóficos, lógicos, éticos, espirituais do Taoismo e em suas práticas. O Taoimo (Daojiao – 道教) é uma tradição espiritual e filosófica chinesa que tem uma origem ancestral sem um patriarca inicial, mas que conta com inúmeros grandes mestres ao longo da sua história, como Lao Zi (老子), também conhecido como Lao Tzu ou Lao Tsé e Zhuāng Zǐ (莊子), também conhecido como Chuang Tzu. Essa tradição coloca o homem no Caminho (Tao) de harmonização com a Natureza em todos os seus aspectos, podendo, assim, ter uma vida de mais harmonia, felicidade, saúde e longevidade.

Os mestres dessa tradição, vendo a necessidade do homem ter uma ferramenta eficaz para recuperação da sua saúde, desenvolveram a Medicina Chinesa. O Imperador Amarelo, autor do primeiro tratado médico chinês, o Huang Di Nei Jing (黃 帝 內 經 – Tratado Interno do Imperador Amarelo) era um grande mestre taoista.

No meu Caminho tive a sorte de ser discípulo do Mestre Wu Jyh Cherng (1958 – 2004), fundador da Sociedade Taoista do Brasil. Foi justamente nas suas fantásticas palestras sobre o Dao De Jing (道 德 經 – Tao Te Ching – O Livro do Caminho e da Virtude), principal obra de Lao Zi, que me encantei por esse modo de vida que me guiaria espiritualmente, mas que também seria a base lógica do meu trabalho como terapeuta de Medicina Chinesa.

Mestre Cherng já havia nos deixado uma preciosa tradução do Dao De Jing feita por ele diretamente do chinês arcaico para o português. Mas é com muita felicidade que divulgo que dia 30 de abril será lançado um novo livro que, além da tradução, contará com os comentários e explicações do Mestre Cherng sobre todos os capítulos do Dao De Jing.

O evento acontecerá na Sociedade Taoista do Brasil, Av. Liberdade, 113, 3º anos, dia 30/04, sábado, a partir das 10hs. Para mais informações: www.sociedadetaoista.com.br

Japão, por Monja Coen

Com respeito peço permissão para reproduzir em nosso site essa emocionante e profunda mensagem da Monja Coen Sensei sobre a tragédia japonesa. Domo arigatô Sensei:

“Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.

Kokoro  ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar.  Educação para ser capaz  de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo  de duas maneiras.

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém.  Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área.  As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as  filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos-

mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica,  alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques.  Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam.  Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave.  Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.  Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta.  Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo.  Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei.  Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico.  As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de  resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.  Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia  o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória,  nada é seguro neste mundo,  tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo  está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.  O planeta tem seu próprio movimento e vida.  Estamos na superfície, na casquinha mais fina.  Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos.  O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos.  E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas..  Todas eram e são pessoas de meu conhecimento.  Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência.  Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)

Monja Coen”